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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Derrota

O Zé era assim. Grandão, cabeçudo, desengonçado e dentuço. Como se não bastasse, alguma coisa aconteceu em sua vida que o deixou gago, ninguem sabia exatamente o que, e ele não se dava ao trabalho de contar. A sorte simplesmente deixa de sorrir para alguns.

E o que podia ele fazer? Nada! Zé sorria bastante, tentava contar piadas que matavam os outros de rir quase sempre, não pela piada em si, mas pela tremenda dificuldade com a qual ele batalhava com as palavras que saíam de sua boca, como se elas não quisessem sair de forma alguma.

Ninguém sabia se Zé era feliz, ninguém se importava, pra falar bem a verdade. Zé era um mascote, como um rato de estimação: todo mundo sabe que é estranho, mas todo mundo adora.

Um dia, Zé desistiu de sorrir, desistiu de contar piadas. De uma hora para a outra, ele não estava mais satisfeito com a posição de mascote. Pegou seu carro com o objetivo de atirar-se do viaduto.

Ligou o carro, não se despediu de ninguém, não afivelou o cinto de segurança. Mas o destino de Zé não era daqueles que permitia um mascote se suicidar. Não é da natureza dos mascotes. O pneu estourou na entrada do viaduto, o carro perdeu velocidade até parar. E o que podia ele fazer? Nada! Sorriu de novo, e ligou para alguém buscá-lo.

Zé aceitou a derrota, então. A derrota da vida inteira.
Afinal, contra o destino dos mascotes é difícil ganhar. O máximo que se pode fazer é ser derrotado com estilo.


verdadeinventadaminha

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Agradecimento.

Suas mãos tremiam enquanto tentava terminar a maquiagem. O espelho quebrado lhe dava uma boa perspectiva de como estava sua vida, de como estava seu dia, de como estavam seus sentimentos.

Tudo em cacos.

Não deixava o otimismo fugir-lhe, porém. E mantinha aquele sorriso sem graça pendurado entre as orelhas, como de costume.

Ouvia as pessoas chegando, ocupando as cadeiras, o barulho aumentava gradualmente, assim como sua ansiedade.

Talvez a ansiedade aumentasse o barulho, aumentava o suor nas mãos, aumentava a dor de estômago, aumentava o sorriso sem graça.

Enquanto bebia um gole de água, que preenchia seu estômago de gelo, pra equilibrar o frio que já estava lá, repassava tudo em sua mente, tentando concentrar-se.

Andou pouco mais de vinte passos, enquanto arrumava a gravata, a flor na lapela, os punhos da camisa.

Posicionou-se atrás da imensidão vermelha daquelas cortinas, esperando que o vermelho se dissipasse.

Aqueles segundos se estenderam por anos, ele sentia suas rugas acentuando-se por detrás da maquiagem, sentia a vista cansada, a coluna se curvando.

As cortinas se moveram, lentamente, ele viu os primeiros anônimos sem rosto nas primeiras fileiras.

Ouviu os aplausos. Assustavam como tambores marciais.
Disse a primeira palavra que deveria dizer.

- Obrigado!